160. Amém

Eu realmente pensei muito antes de escrever um texto sobre religião no blog. Nestas horas eu me lembro daquela fala do Ed Bloom no filme “Peixe Grande” em que ele afirma que os papagaios africanos falam de tudo. Política, filmes, moda… Tudo menos religião, pois eles nunca sabem quem poderão ofender. Então, meus amiguinhos, quero avisar que os parágrafos abaixo são as minhas opiniões sobre o assunto e não tenho interesse nenhum de fazer proselitismo aqui no site.

Pois bem, para quem me conhece e convive comigo não deve ser novidade nenhuma o fato de que eu cresci em uma família predominantemente católica (em que a religiosidade sempre fez parte das relações sociais entre os Lorinis e os Carneiros). E também não deve ser novidade nenhuma o fato de que há alguns anos eu me afirmo como ateu, indo contra boa parte dos princípios que me foram ensinados desde criança.

Mas também afirmar que eu “virei ateu” seria um certo equívoco. Todos nós nascemos ateus. E só mais tarde é que a sociedade trata de colocar informações na nossa cabeça sobre deus, religiões e os paradigmas do que é certo e o que é errado aos olhos deste ser onipresente. Mas claro que eu não mudei assim da noite para o dia. Foram anos de dúvidas e questionamentos sobre coisas das quais não é muito comum as pessoas questionarem. Elas simplesmente acreditam e pronto.

Mas se tem uma coisa que eu não mudei foi o fato de ter a mente aberta para novas ideias. E na semana passada eu comecei a assistir um documentário sobre Jesus Cristo (que por falta de tempo eu só consegui terminar na última quarta-feira) indicado pelo Társio no facebook. Basicamente mostra a busca de um homem por evidências de que Cristo realmente existiu.

Ah! Mais uma coisa interessante aqui. Como ateu eu nunca neguei a existência de Jesus. Acredito que ele existiu, mas não acredito que ele tenha sido “o messias filho de deus que veio livrar o mundo do mal”. Na minha opinião (e acredito nisso mais ainda depois de assistir o documentário), Jesus foi uma pessoa extremamente boa, que ajudava os outros, tal qual Madre Teresa, Gandhi e tantos outros (independente de suas crenças). Com isso Jesus conseguiu um certo destaque na sociedade da época, provocando a ira de alguns poderosos, o que culminou com a sua morte. Pronto, foi o suficiente para o homem virar uma lenda tão forte, capaz de inspirar outras pessoas, e quando a gente menos espera surge o Cristianismo.

Aí tem aqueles que dizem “Ah, mas na bíblia diz que…” Ok, a bíblia, até onde eu sei, é um conjunto de documentos históricos da época, mas não se pode levar ao pé da letra tudo que ela diz por três motivos principais. Primeiro porque na época não havia o vocabulário extenso que temos hoje, portanto muitas palavras podem ter sido traduzidas de forma incorreta (as vezes até propositadamente). Os originais que poderiam tirar as dúvidas simplesmente não existem mais (estranho, não é?). Segundo porque ela é cheia de “buracos”. Principalmente na adolescência e começo da vida adulta de Jesus. Não dá para saber o que tem ali, não dá para preencher as lacunas, mas com certeza é algo que os “editores” não queriam que nós soubéssemos. E terceiro porque a bíblia é apenas um ponto de vista sobre os fatos, o que não quer dizer que seja o único. O Alcorão e a Torá trazem versões diferentes sobre os mesmos eventos. Outra coisa que eu nunca entendi sobre a bíblia é porque deus se apresenta de forma tão vingativa no antigo testamento e é tão amoroso no novo…

Enfim, eu reconheço o fato de que as religiões possuem uma participação significativa na cultura das pessoas. Mas penso que essa participação deve ser dosada. Principalmente o Catolicismo, que quer influenciar a criação de leis em um país que não é formado apenas por católicos. Eu não sou contra as pessoas possuírem uma religião. Mas eu sou completamente contra qualquer tipo de fanatismo e isso é algo que está cada vez mais comum na sociedade (e em várias religiões).

Eu nunca falei de religião nas aulas de Geografia. Muito menos no Ensino Fundamental. Mas aí semana passada, do nada, um aluno da sétima série me perguntou se eu acreditava em deus. Ficou aquele silêncio na sala de aula. Eu não podia mentir pro aluno, mas dependendo do que eu dissesse os pais dele poderiam ir na escola reclamar no dia seguinte. Falei para ele que eu não, mas que isso não significava que eu era uma pessoa ruim. Pensei que falar em “evolucionismo” seria pesado demais para os alunos da sétima, mas expliquei que todos temos o direito de acreditar no que queremos, mas isso não nos dá o direito de querer convencer os outros das nossas ideias.

Por fim, encerro com as palavras de J.P. Moreland, tiradas do documentário indicado: “Algumas vezes as pessoas começam a acreditar em coisas que gostariam que fossem verdade”.

  Alexi Murdoch
“Time Without Consequence”

Publicado em 16 de março de 2012, em Divagações. Adicione o link aos favoritos. 3 Comentários.

  1. Bom dia Lorini,

    Demorou mas finalmente entrego a primeira parte da resposta. Houve uma grande letargia porque precisava estudar para te dar uma resposta, além da faculdade, trabalho e estudar para ambos somado a maravilhosa nova vida de casado.

    Sim, responderei por partes porque acredito que neste caso a melhor resposta é aquela baseada na ciência. Como base para as respostas usarei o livro de mesmo nome do documentário: Em Defesa de Cristo de Lee Strobel. Um livro de leitura fácil e simples porém muito bem embasado.

    Link: http://www.scribd.com/doc/31287225/Lee-Strobel-Em-Defesa-de-Cristo.

    Optei por simplesmente transliterar quase que integralmente as respostas que o livro apresenta para que os argumentos fiquem mais claros, concisos e bem expostos.

    Pergunta: Os originais que poderiam tirar as dúvidas simplesmente não existem mais (estranho, não é?).

    Resposta:

    As palavras são de Bruce Metzger, mestre pelo Seminário e pela Universidade de Princeton, onde fez também seu doutorado. É doutor honorário por cinco faculdades e universidades, dentre elas a St. Andrews University, da Escócia, a Universidade de Munster, na Alemanha, e a Potchefstroom, da África do Sul. Em 1969, foi professor na Tyndale House, em Cambridge, Inglaterra. Também lecionou em Clare Hall, Universidade de Cambridge, em 1974, e no Wolfson College, em Oxford, em 1979. Atualmente é professor emérito do Seminário Teológico de Princeton, depois de uma carreira de 46 anos ensinando o Novo Testamento.
    (pagina 58)

    Não é só a Bíblia que está nessa situação, outros documentos antigos que chegaram até nós também estão. A vantagem do Novo Testamento, principalmente quando comparado com outros escritos antigos, é que muitas cópias sobreviveram. Isto é importante porque quanto maior o número de cópias em harmonia umas com as outras, sobretudo se provêm de áreas geográficas diferentes, tanto maior a possibilidade de confrontá-las, o que nos permite visualizar como seriam os documentos originais. A única forma possível de harmonizá-los seria pela ascendência de todos eles à mesma árvore genealógica que representaria a descendência dos manuscritos.

    A idade dos documentos também é um outro dado que favorece o Novo Testamento. Temos cópias que datam de algumas gerações posteriores ao escrito dos originais, ao passo que, no caso de outros textos antigos, talvez cinco, oito ou dez séculos tenham se passado entre o original e as cópias mais antigas que sobreviveram. Além dos manuscritos gregos, temos também a tradução dos evangelhos para outras línguas numa época relativamente antiga: para o latim, o siríaco e o copta. Além disso, temos o que podemos chamar de traduções secundárias feitas pouco depois, como a armênia e a gótica. Há várias outras além dessas: a georgiana, a etíope e uma grande variedade.
    Mesmo que não tivéssemos nenhum manuscrito grego hoje, se juntássemos as informações fornecidas por essas traduções que remontam a um período muito antigo, seria possível reproduzir o conteúdo do Novo Testamento. Além disso, mesmo que perdêssemos todos os manuscritos gregos e as traduções mais antigas, ainda seria possível reproduzir o conteúdo do Novo Testamento com base na multiplicidade de citações e comentários, sermões, cartas etc. dos antigos pais da igreja.
    Mas de que modo isso contrasta com outros livros antigos normalmente reputados pelos eruditos por confiáveis? Por exemplo, falemos alguns escritos de autores da época de Jesus. Vejamos o caso de Tácito, o historiador romano que escreveu os Anais por volta de 116 d.C. — começou. — Seus primeiros seis livros existem hoje em apenas um manuscrito, copiado mais ou menos em 850 d.C. Os livros 11 a 16 estão em outro manuscrito do século xi. Os livros 7 a 10 estão perdidos. Portanto, há um intervalo muito longo entre o tempo em que Tácito colheu suas informações e as escreveu e as únicas cópias existentes. Com relação a Josefo, historiador do século I, temos nove manuscritos gregos de sua obra Guerra dos judeus, todos eles cópias feitas nos séculos X a XII. Existe uma tradução latina do século IV e textos russos dos séculos XI ou XII. Para comparar hoje há mais de 5 mil catalogados manuscritos do Novo Testamento grego.

    O volume de material do Novo Testamento é quase constrangedor em relação a outras obras da Antigüidade. O que mais se aproxima é a Ilíada de Homero, que era a bíblia dos antigos gregos. Há menos de 650 manuscritos hoje em dia. Alguns são muito fragmentários. Eles chegaram a nós a partir dos séculos 11 e m d.C. Se levarmos em conta que Homero redigiu seu épico em aproximadamente 800 a.C, veremos que o intervalo é bastante longo. De fato, não havia comparação: a existência de manuscritos do Novo Testamento constituía uma prova surpreendente quando justaposta a outros escritos respeitados da Antigüidade — obras que os estudiosos modernos não relutam de forma alguma em considerar autênticas.

    Os mais antigos são fragmentos de papiros do Novo Testamento, que era um tipo de material para escrita feito da planta do papiro que crescia às margens do delta do Nilo, no Egito. Existem atualmente 99 fragmentos de papiros com uma ou mais passagens ou livros do Novo Testamento. Os mais importantes já descobertos são os papiros Chester Beatty, achados por volta de 1930. Destes, o número 1 apresenta partes dos quatro evangelhos e do livro de Atos, datando do século III d.C. O papiro número 2 contém grandes porções de oito cartas de Paulo além de trechos de Hebreus, e a data gira em torno de 200 d.C. O papiro número 3 compreende uma seção enorme do livro de Apocalipse, com data do século III d.C. Um outro grupo de manuscritos de papiros importantes foi comprado por um bibliófilo suíço, Martin Bodmer. O mais antigo deles, de aproximadamente 200 d.C, contém cerca de dois terços do evangelho de João. Um outro papiro, com partes dos evangelhos de Lucas e João, é do século III d.C.

    De todo o Novo Testamento o fragmento mais antigo que temos hoje é do evangelho de João com parte do capítulo 18.Tem cinco versículos, três de um lado, dois de outro e mede cerca de 6,5 por nove centímetros. Foi comprado no Egito em 1920, mas passou despercebido durante anos em meio a outros fragmentos de papiros semelhantes. Em 1934, porém, C. H. Roberts, do Saint Johris College, de Oxford, trabalhava na classificação de papiros na Biblioteca John Rylands, em Manchester, na Inglaterra, quando percebeu imediatamente que havia deparado com um papiro em que se achava preservado um trecho do evangelho de João. Pelo estilo da escrita, ele foi capaz de datá-lo. Ele concluiu que o manuscrito era de cerca de 100 a 150 d.C. Muitos outros paleógrafos famosos, como sir Frederic Kenyon, sir Harold Bell, Adolf Deissmann, W. H. P. Hatch, Ulrich Wilcken e outros, concordam com sua avaliação. Deissmann estava convencido de que o manuscrito remontava pelo menos ao reinado do imperador Adriano, nos anos 117 a 138 d.C, ou até mesmo ao do imperador Trajano, entre os anos 98 e 117 d.C. Era uma descoberta formidável, porque os teólogos alemães céticos do século passado haviam postulado enfaticamente que o quarto evangelho não fora redigido pelo menos até o ano 160 — numa época já bem distante dos eventos do tempo de Jesus para que pudesse ter alguma utilidade histórica. Com isso, influenciaram gerações de estudiosos, que zombavam da confiabilidade desse evangelho. Temos aqui um fragmento muito antigo do evangelho de João proveniente de uma comunidade das margens do rio Nilo, no Egito, muito distante de Éfeso, na Ásia Menor, onde o evangelho provavelmente foi escrito. Essa descoberta fez com que as pontos de vista populares da história fossem revistos, colocando o evangelho de João muito mais próximo dos dias em que Jesus caminhou pela terra.

    Embora os manuscritos de papiros constituam as cópias mais antigas do Novo Testamento, existem também cópias antigas escritas em pergaminhos, feitos de pele de gado, ovelhas, cabras e antílopes. Temos também os chamados manuscritos unciais, escritos inteiramente em letras gregas maiúsculas. Hoje há 306 exemplares, muitos dos quais remontam ao início do século III. Os mais importantes são o Códice sinaítico, que é o único com o Novo Testamento completo em letras unciais, e o Códice Vaticano, bastante incompleto. Ambos são de cerca de 350 d.C. Um novo estilo de escritura, de natureza mais cursiva, emergiu por volta de 800 d.C. É chamado de minúscula, e há cerca de 2 856 manuscritos desse tipo. Há também os lecionários, que contêm as Escrituras do Novo Testamento na seqüência de leitura prescrita pela igreja primitiva em determinadas épocas do ano. Um total de 2 403 desses manuscritos já foram catalogados. Com isso, o total geral de manuscritos gregos chega a 5 664. De acordo com Metzger, além dos documentos gregos existem milhares de outros manuscritos antigos do Novo Testamento em outras línguas. Existem entre 8 e 10 mil manuscritos da Vulgata latina, mais um total de 8 mil em etíope, eslavo antigo e armênio. No total, há cerca de 24 mil manuscritos.

    Podemos confiar imensamente na fidelidade do material que chegou até nós, principalmente se o compararmos a qualquer outra obra literária antiga. Essa conclusão é compartilhada por estudiosos eminentes de todo o mundo. De acordo com o falecido F. F. Bruce, autor de Merece confiança o Novo Testamento?, “no mundo não há qualquer corpo de literatura antiga que, à semelhança do Novo Testamento, desfrute uma tão grande riqueza de confirmação textual” (F. F. BRUCE, The books and the parchments, Old Tappan, Revell, 1963, p. 178, ap. Josh MCDOWELL, Evidência que exige um veredito, 2. ed., São Paulo, Candeia, p. 53.). Metzger já mencionara o nome de sir Frederic Kenyon, ex-diretor do Museu Britânico e autor de The paleography of Greek papyrí [A paleografia dos papiros gregos]. Segundo Kenyon, “em nenhum outro caso o intervalo de tempo entre a composição do livro e a data dos manuscritos mais antigos são tão próximos como no caso do Novo Testamento” (17 Frederic KENYON, Handbook to the textual criticism of the New Testament, New York, Macmillan, 1912, p. 5,ap. Ross CLIFFORD, The case for the empty tomb, Claremont, Albatross, 1991, p. 33.). Sua conclusão: “Não resta agora mais nenhuma dúvida de que as Escrituras chegaram até nós praticamente com o mesmo conteúdo dos escritos originais”.( Frederic KENYON, The Bible And Archaeology, New York, Harper, 1940, p. 288.).

  2. * Sim responderei por partes porque isso me permite pesquisar melhor e oferecer uma resposta baseada na ciência

  3. PERGUNTA:
    Primeiro porque na época não havia o vocabulário extenso que temos hoje, portanto muitas palavras podem ter sido traduzidas de forma incorreta (as vezes até propositadamente).

    RESPOSTA:
    Dada a semelhança de escrita das letras gregas e as condições primitivas nas quais trabalhavam os escribas, era grande a possibilidade de que eles introduzissem erros nos textos. Então existem milhares de variações nos manuscritos antigos que possuímos. Entretanto, isso não significa que não podemos confiar neles. Em primeiro lugar, os óculos só foram inventados em 1373, em Veneza. Tenho certeza de que muitos dos antigos escribas sofriam de astigmatismo. Acrescente-se a isso a dificuldade que era, independentemente das circunstâncias, ler manuscritos já apagados, cuja tinta havia perdido a nitidez. Havia também outros perigos falta de atenção da parte dos escribas, por exemplo. Portanto, embora a maior parte dos escribas fosse escrupulosamente cuidadosa, alguns erros acabavam passando.

    Mas há outros fatos que compensam isso. Por exemplo, às vezes a memória do escriba pregava-lhe peças. Entre olhar o que tinha de copiar e, em seguida, escrever o que lera, ele podia acabar mudando a ordem das palavras. Ele escrevia exatamente as palavras que lera, porém na seqüência errada. Isso não deve ser motivo para se alarme, já que o grego, ao contrário de outras línguas, como o inglês ou o português, é uma língua que admite flexões. Isso quer dizer que faz uma enorme diferença em português se você disser: “O cachorro morde o homem” ou: “O homem morde o cachorro”. A ordem das palavras é importante em português, mas não no grego. Uma palavra pode, funcionar como sujeito da oração independentemente de onde esteja colocada. Conseqüentemente, o significado da oração não fica truncado se as palavras não estiverem na ordem que consideramos correta. Existe, portanto, uma certa variação entre um manuscrito e outro, mas, em geral, são variações de somenos importância. As diferenças de grafia seriam um outro exemplo. Mesmo assim, o número de “variações” ou de “diferenças” entre os manuscritos era preocupante. Há algumas estimativas da ordem de 200 mil variações (Norman L. GEISLER & William E. Nix, Introdução bíblica: como a Bíblia chegou até nós, São Paulo, Vida, 1997, p. 172.). Contudo, essa quantidade não tem muita importância. O número parece grande, mas engana um pouco pelo modo como as variações são computadas. Explicando: se única palavra for escrita incorretamente em 2 mil manuscritos, contabilizam-se 2 mil variações.

    Quantas doutrinas da igreja estão em risco por causa das variações? Não há nenhuma doutrina que esteja em risco. Os testemunhas-de-jeová batem à sua porta e lhe dizem: “Sua Bíblia está errada em 1João 5.7,8, onde se lê: ‘o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um’ (NVI, nota de rodapé). Eles dirão que não é assim que esse texto aparece nos manuscritos mais antigos. E é verdade mesmo. Acho que essas palavras só aparecem em cerca de sete ou oito cópias, todas dos séculos XV ou XVI. Admito que esse texto não faz parte do que o autor de 1João foi inspirado a escrever. Isso, porém, não invalida o testemunho sólido da Bíblia acerca da Trindade. No batismo de Jesus, o Pai fala, seu Filho amado é batizado e o Espírito Santo desce sobre ele. No final de 2Coríntios, Paulo diz: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vocês”. A Trindade aparece representada em muitos lugares.

    As variações, sempre que ocorrem, normalmente são de importância secundária, e não primordial. Os estudiosos trabalham muito cuidadosamente para tentar solucioná-las, devolvendo-lhes o significado original. As variações mais significativas não solapam nenhuma doutrina da igreja. Qualquer Bíblia que se preza vem com notas que indicam as variações de texto mais importantes . Mas, esses casos são raros. São tão raros que estudiosos como Norman Geisler e William Nix chegaram à seguinte conclusão: “… o Novo Testamento não só sobreviveu em um número maior de manuscrito, mais que qualquer outro livro da Antigüidade, mas sobreviveu em forma muito mais pura (99,5% de pureza) que qualquer outra obra grandiosa, sagrada ou não” (Ibid., p. 176).

    Todavia, mesmo que seja verdade que a transmissão do Novo Testamento ao longo da história tenha sido sem precedentes em sua confiabilidade, como saber se temos de fato o material completo? E quanto às alegações de que os concílios da igreja teriam eliminado documentos igualmente legítimos porque não gostavam da imagem que eles pintavam de Jesus? Como saber se os 27 livros do Novo Testamento representam o que há de melhor e mais confiável em termos de informação? Por que nossas Bíblias trazem os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, enquanto muitos outros evangelhos antigos — o Evangelho de Filipe, dos Egípcios, da Verdade, da Natividade de Maria — foram excluídos?

    Era hora de nos voltarmos para a questão do “cânon”, uma palavra de origem grega que significa “regra”, “norma” ou “padrão” e que descreve os livros aceitos como oficiais pela igreja e incluídos no Novo Testamento.21 Metzger é considerado a principal autoridade nessa área.

    Como foi que os primeiros líderes da igreja determinaram quais livros seriam autorizados e quais deveriam ser excluídos? Que critérios foram utilizados para saber que documentos deveriam ser incluídos no Novo Testamento? A igreja primitiva tinha basicamente três critérios. Em primeiro lugar, os livros tinham de ter autoridade apostólica, quer dizer, tinham de ter sido escritos ou pelos próprios apóstolos, que foram testemunhas oculares acerca do que escreveram, ou por seus seguidores. Portanto, no caso de Marcos e Lucas, embora não pertencessem ao grupo dos 12, diz uma antiga tradição que Marcos foi ajudante de Pedro, e Lucas, companheiro de Paulo.

    Em segundo lugar, havia o critério de conformidade com o que era conhecido como regra de fé. Isto é, o documento estava em harmonia com a tradição cristã básica que a igreja reconhecia normativa. E, em terceiro lugar, procurava-se estabelecer se um documento em especial gozara de aceitação e uso contínuos por toda a igreja. Mas eles simplesmente aplicavam esses critérios e pronto? Não seria muito correto dizer que esses critérios eram simplesmente aplicados de modo automático. É claro que havia diferentes opiniões sobre quais critérios deveriam pesar mais. O que chama mais a atenção, porém, é que, apesar de a periferia do cânon ter permanecido instável durante algum tempo, havia um alto grau de unanimidade no tocante à maior parte do Novo Testamento durante os dois primeiros séculos. Foi o que aconteceu em diversas congregações espalhadas em uma área muito ampla.

    Os quatro evangelhos que temos no Novo Testamento pautaram-se por esses critérios, ao passo que os outros não. Foi, se é que se pode falar assim, como se fosse uma espécie de “sobrevivência do mais apto”. Quando se referia ao cânon, Arthur Darby Nock costumava dizer aos seus alunos em Harvard: “As estradas de maior trânsito da Europa são as melhores; por isso o trânsito é tão intenso”. É uma boa analogia. O comentarista britânico William Barclay formulou o pensamento da seguinte maneira: ‘A verdade pura e simples é que os livros do Novo Testamento entraram para o cânon porque não havia como impedi-los de entrar”. Podemos estar certos de que nenhum outro livro antigo pode se comparar ao Novo Testamento em termos de importância para a história ou a doutrina cristãs. Quando estudamos a história primitiva do cânon, saímos convencidos de que é no Novo Testamento que encontramos as fontes mais fidedignas para a história de Jesus. Os que fixaram os limites do cânon tinham uma perspectiva clara e equilibrada do evangelho de Cristo. Leia os outros documentos e veja por si mesmo. Eles foram escritos depois dos quatro evangelhos, nos séculos II a VI, muito tempo depois de Jesus, e, em geral, são muito banais. Seus nomes, como o Evangelho de Pedro e o de Maria, não correspondem aos autores verdadeiros. Por outro lado, os quatro evangelhos do Novo Testamento foram prontamente aceitos com notável unanimidade como portadores de conteúdo autêntico.

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